2 de junho de 2013

Capítulo 3

Emily voltou ao quarto depois de terminar de coletar água. Sem energia elétrica não havia TV, rádio ou luz, e, sem ter o que fazer, se deitou na cama.
Ela sabia que não conseguiria dormir. Mesmo que a tempestade não estivesse tão barulhenta, Emily estava no limite. Gostaria de não estar sozinha. Sua mãe saberia o que fazer em situações como aquela, mas ela estava morta, e nada que a garota fizesse mudaria aquilo. Emily estava sozinha, e começou a se arrepender de não ter pedido para que tia Maureen fosse ficar com ela.
Outro flash ofuscante e a terrível explosão do trovão de um raio surgiram do lado de fora. Emily sentiu o prédio inteiro tremer. Mas havia algo mais além daquele trovão. Exatamente acima de si, Emily ouviu o som de algo muito grande e pesado atingindo o prédio.
Como ela e o pai moravam no último andar, acima havia apenas a área do terraço, que utilizavam por pagarem uma taxa extra. Lá, havia um jardim e uma horta feitos pela mãe de Emily, mas ninguém mais tinha ido até lá desde que ela ficou doente e morreu. Emily ficou preocupada com a possibilidade de um pedaço da antena do Empire State ter acertado seu prédio, ou talvez um raio tivesse caído e destruído o jardim de sua mãe.
Ela pensou se deveria ligar para o pai e perguntar o que fazer. Será que o raio começaria um incêndio e seu prédio estava prestes a se queimar inteiro? A chuva caía em rajadas fortes, mas será que conseguiria apagar o fogo, se é que havia mesmo fogo? Quanto mais perguntas e medos surgiam, mais o coração de Emily batia devagar, quase parando.
Outros sons continuaram vindo lá de cima. Era como se alguém ou algo estivesse chutando o telhado do prédio. Apontando a lanterna para o alto, Emily prendeu a respiração quando o facho de luz revelou uma grande rachadura no gesso do teto. O lustre balançava e pequenos pedaços de tinta e gesso começaram a cair.
Ela pegou o celular, mas, mesmo depois de apertar o botão de discagem rápida, desistiu e desligou. O que iria dizer ao pai? Que algo grande tinha atingido o prédio e rachado o teto de seu quarto? Talvez ele dissesse para Emily sair do prédio, mas isso significaria ir até o corredor escuro e achar o caminho para as escadas. Depois teria que descer vinte andares e sair para a rua, onde chovia sem parar.
— Melhor não, Em — disse a si mesma. — Não tem nada lá em cima. É só algo do jardim que caiu e a porta batendo com o vento.
Mas antes de conseguir se convencer de que não era nada sério, as batidas começaram novamente.
— Isso é loucura! — disse já saindo da cama. — Você não vai subir...
Era como se o seu corpo e sua mente não entrassem num acordo. Quanto mais a mente de Emily tentava fazer com que a garota desistisse, mais seu corpo mostrava determinação em investigar os estranhos sons que vinham lá do terraço do prédio.
Emily vestiu sua capa de chuva, pegou as chaves do apartamento e foi até a porta. Com um pensamento tardio, mas rápido, pegou o taco de beisebol que ficava ao lado da porta por motivos de segurança.
Com apenas o facho de luz da lanterna iluminando o caminho, Emily subiu as escadas, ouvindo sons de passos e vozes de outros moradores que usavam as escadas para chegar em casa.
— Isto não é algo inteligente, Em. Tem raios lá em cima! — ela avisou a si mesma. Mas, mais uma vez, uma parte dela não estava ouvindo.
Emily chegou ao fim das escadas e encarou a porta fechada que dava acesso ao terraço do prédio. Com a lanterna em uma mão e o taco na outra, precisou se esforçar para colocar a chave na fechadura. Quando conseguiu girar, a porta se abriu um pouco. De repente, uma rajada de vento surgiu e a maçaneta escapou de sua mão. A porta se abriu com força, fazendo um som terrível quando quase foi arrancada de suas dobradiças.
— E eu querendo entrar silenciosamente... — repreendeu-se.
Emily caminhou para a chuva, que caía forte, e começou a examinar o lugar com a lanterna, procurando por algum foco de incêndio. Fazia quase um ano que ela estivera ali pela última vez. As plantas tinham crescido desordenadamente. O mato dominara o local e cobria o que antes era um belo jardim florido. A horta estava irreconhecível. No escuro e com a tempestade no auge, aquele não era mais o jardim que Emily conhecera. Agora era apenas um lugar sombrio e assustador, cheio de mistérios e perigos.
Apesar do barulho da chuva, Emily ainda conseguia ouvir outros sons. Eram aquelas batidas novamente. Agora havia mais batidas, contudo. Quando se concentrou para ouvir por cima de todo o barulho da tempestade, teve a impressão de ter escutado um lamento, ou um som semelhante a um choramingo de dor.
Andando devagar, passou o facho de luz pelo jardim. A direita dela estava o grande caminho de rosas, que tinha sido o orgulho e a alegria de sua mãe. Todos os verões, sem falta, o apartamento era preenchido com a fragrância das flores recém-colhidas que sua mãe cultivava ali. Agora as roseiras se tornaram selvagens e cresciam pelo beiral do terraço.
Um movimento repentino no meio das roseiras chamou a atenção de Emily, que redirecionou a lanterna e achou que avistara algo dourado brilhando. Ela andou mais um pouco e manteve a luz no mato. Ali! O brilho dourado novamente. Dando mais um passo nervoso, Emily levantou o taco.
— Quem quer que esteja aí, saia agora!
Quando deu mais um passo hesitante, um raio iluminou o céu e banhou todo o terraço com sua luz. O que Emily viu no jardim das rosas era algo impossível. Ela cambaleou para trás, perdeu o equilíbrio e caiu com tudo no chão.
— Não é real — disse a si mesma. Se apoiando nas mãos e joelhos, ela pegou a lanterna. — Você não viu o que acha que viu, Em. É só a tempestade mexendo com a sua cabeça. É só isso!
Ao direcionar a luz novamente para o mato, seu coração batia tão rápido que ela achou que fosse desmaiar. Cambaleando, Emily ficou em pé e avançou lentamente.
— Não é real, Em, não é real — repetia para si mesma enquanto se aproximava. — Você não viu nada!
Mas quando apontou a lanterna para o mesmo lugar, não conseguiu negar a verdade. Era bem real.
Um grande cavalo branco estava deitado de lado no jardim das rosas. O brilho que ela notara vinha de um de seus cascos. Ao prestar mais atenção, Emily prendeu a respiração. Era de ouro. Levantando a lanterna, ficou ainda mais chocada. O animal tinha asas enormes, cobertas de barro, folhas e pétalas, mas inconfundíveis com suas longas penas brancas.
— Não! — Emily gritou. — Isso é impossível!
Outro raio iluminou o terraço, confirmando o que ela tentava negar tão fortemente. Um cavalo branco com cascos dourados e enormes asas brancas estava deitado de lado no meio do jardim de rosas de sua falecida mãe.
Sem conseguir se mover e quase sem respirar, Emily observava o animal sem acreditar no que via. Enquanto olhava, as asas se moveram, seguidas de um terrível urro de dor, que fez o coração de Emily ficar apertado. O animal estava ferido e sentindo dor. Avançando sem se preocupar com os espinhos afiados que rasgavam sua pele, Emily adentrou os arbustos e começou a afastá-los do cavalo ferido.
Ela conseguiu passar pelo animal até chegar a sua cabeça, que estava caída no chão e completamente presa em roseiras, cujos espinhos penetravam na pele macia do garanhão.
Emily gritou de dor quando os espinhos perfuraram sua pele no momento em que começou a livrar a cabeça do animal daquelas roseiras cruéis. Ele estava acordado e olhava para ela com seus grandes olhos negros.
— Está tudo bem, não vou machucar você — ela falou calmamente. — Vou soltá-lo em um minuto, então talvez possa ficar em pé, se não estiver muito machucado.
Quando a maior parte da cabeça ficou livre, ele tentou se levantar, mas soltou um grito de agonia quando a asa que estava à vista se moveu.
— Pare, pare! — Emily acariciou o pescoço trêmulo do cavalo. — Não se mova. Vou tentar ver o que está errado.
Emily continuou a acariciar seu pescoço forte e quente enquanto levantava a lanterna e passava o facho de luz pelo corpo do animal. Ela via uma das asas descansando, mas não conseguia ver a outra.
— Imagino que você não tenha apenas uma asa, não é mesmo?
O animal levantou a cabeça e olhou para ela como que implorasse por ajuda.
— Não — ela suspirou. — Pelo visto não mesmo.
Emily logo livrou o cavalo das roseiras. Quando levantou a lanterna de novo, pôde ver a ponta da asa, mas ela estava em uma posição estranha, presa embaixo de todo o peso do corpo do animal.
— Sua outra asa está presa embaixo de você, mas imagino que já sabia disso.
Depois de tirar as últimas roseiras de cima do animal, ela voltou até a cabeça.
— Fiz tudo o que podia, mas precisamos tirá-lo de cima da asa. Se eu der a volta e empurrá-lo, você pode tentar se levantar?
Como que em resposta àquela pergunta, o cavalo pareceu assentir com a cabeça.
— Você está mesmo ficando louca, Em — murmurou para si mesma. — É um cavalo. Ele não entende o que está dizendo.
Ela se ajoelhou na lama escorregadia e acariciou o lado da barriga do animal.
— Certo, me desculpe, mas isso provavelmente vai doer. Quando eu começar a empurrar, quero que tente se levantar.
Apoiando as mãos firmemente nas costas do cavalo, Emily se inclinou para a frente e começou a empurrar com toda a força que tinha.
— Agora! — ela bufou. — Se levante agora!
Emily podia sentir os músculos das costas do animal se tensionando sob suas mãos enquanto ele se esforçava para se levantar.
— Isso mesmo! — Empurrando e tensionando, ela começou a sentir seus joelhos escorregando na lama. — Não pare! Você consegue!
Jogando todo o seu peso contra o cavalo, Emily sentiu o animal se mover, mas quando ele rolou para a frente, a asa presa se soltou e a acertou no rosto. Emily gritou quando foi derrubada para trás, no meio das roseiras. Deitada no jardim, os espinhos afiados fizeram grandes furos em sua calça jeans e em seu casaco e penetraram em sua pele.
Mas a dor logo foi esquecida quando as luzes dos raios revelaram o cavalo, agora em pé, olhando para ela. Apesar de estar sujo de lama, com folhas cobrindo seu corpo e emaranhadas em sua crina, e ignorando os muitos cortes e arranhões feitos pelos espinhos, Emily estava maravilhada. Ela nunca vira algo tão incrível quanto aquilo em toda a sua vida.
No momento em que descobriu o cavalo no telhado e viu suas asas, um nome surgiu em sua mente. Uma história de um velho livro de mitologia, há muito esquecido, que sua mãe costumava ler para ela. Mas a preocupação com o animal a tinha distraído daquele pensamento, que agora tinha voltado e inundava sua mente. Saindo do meio das roseiras, Emily se aproximou. O cavalo fez o mesmo, indo em sua direção.
— É você mesmo, não? — ela sussurrou calmamente enquanto corajosamente acariciava o focinho dele. — Você é o Pegasus, não é? Quer dizer, o Pegasus de verdade.

O garanhão pareceu fazer uma pausa. Depois cutucou a mão da menina, convidando-a a fazer outro carinho em seu focinho. Naquele instante, completamente ensopada pela chuva, Emily sentiu seu mundo mudar. E para sempre.

6 comentários:

  1. Ain q liamdo... eu amoooo cavalos gente....

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    1. Concordo xará. também adoro cavalos!

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  2. Caçadora de Artemis14 de outubro de 2013 15:40

    Sim, os cavalos são lindos.

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  3. Pessoal, não é um cavalo é o Pegasus

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  4. Segundo a Diana chamar o Pegasus de cavalo eh uma ofensa....

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  5. PREFIRO O CAVALO DO PERCY JACKSON

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