6 de abril de 2013

Capítulo 9 - Através do deserto


— Que horror! Que horror! — gemeu Lasaralina. — Estou apavorada, querida. Estou tremendo da cabeça aos pés. Veja só.
— Vamos — disse Aravis, que também tremia. — Já foram para o palácio novo. Estaremos salvas lá fora. Como demoraram! Leve-me logo para a porta da muralha, depressa.
— Mas você tem coragem, querida? Olhe o meu estado de nervos! Não, por favor: vamos descansar um pouco e voltar para casa. No momento, nem consigo dar um passo. Que nervosismo, querida! Quero voltar para casa.
— Voltar?!
— Você não entende, não é? Você é tão pouco compreensiva! — falou a amiga, começando a chorar.
“Não é hora para compaixão”, pensou Aravis.
— Olhe uma coisa! — e deu umas boas sacudidelas em Lasaralina. — Se disser outra vez a palavra voltar, e se não me levar imediatamente para a porta do rio... sabe o que vou fazer? Vou lá fora e dou um berro... e pegam a gente.
— E nós duas então iremos mo... morrer! Você não acabou de ouvir o que disse o Tisroc – que ele viva para sempre!
— Ouvi, mas prefiro morrer a me casar com Achosta. Logo, em frente!
— Você está sendo má, Aravis. Veja só o meu estado de nervos.
Mas Lasaralina acabou entregando os pontos. Voltaram, seguiram por um comprido corredor e chegaram por fim ao ar livre.
Estavam agora no jardim do palácio com aqueles terraços em tabuleiros, cercados pelas muralhas da cidade. A lua brilhava. Uma desvantagem das aventuras é esta: quando chegamos aos lugares mais belos, estamos em geral tão aflitos e apressados que não somos capazes de apreciá-los. Por isso Aravis (apesar de lembrar-se anos depois) teve apenas uma vaga impressão de relvados cinzentos, fontes murmurantes, sombras esguias de ciprestes.
Quando chegaram ao fim da rampa, e a muralha lhes barrou o caminho, Lasaralina tremia tanto que não foi capaz de abrir o portão. Aravis passou à frente e o fez. Lá estava o rio, espelhando o luar, com um pequeno cais de amarração e simpáticas canoas.
— Adeus — disse Aravis — e muito obrigada. Perdoe se fiz jogo sujo, mas pense um pouquinho de quem estou escapando.
— Querida, não quer desistir? Agora já viu que Achosta é um grande homem!
— Grande homem! Um escravo repugnante e rastejante que a chutes no traseiro responde com lisonjas, mas vai guardando tudo, e acaba levando o Tisroc a aceitar um plano que causará a morte do próprio filho!
— Aravis! Aravis! Como você pode dizer uma coisa destas? E sobre o Tisroc – que ele viva para sempre! – também! Se ele fez aquilo, é porque está certo!
— Adeus e... achei lindos os seus vestidos. E sua casa também é linda. E você vai ter uma vida linda... Só que não é a minha vida. Feche a porta devagar.
Escapou dos ternos beijos da amiga, pulou para dentro de uma canoa e daí a pouco estava em pleno rio, com duas luas, uma no céu, outra no fundo das águas. Como era boa a brisa!
Quando se aproximava da outra margem ouviu o pio de uma coruja. “Muito mais agradável!” Vivera sempre no campo e detestara todos os minutos passados em Tashbaan.
Ao pisar em terra, viu-se cercada pela escuridão, pois a elevação do terreno e as árvores impediam a passagem do luar. Mesmo assim conseguiu descobrir o caminho trilhado por Shasta, divisando por fim os túmulos escuros. E, por mais valente que fosse nesse momento, o seu coração estremeceu. E se os outros não estivessem lá? E se, no lugar deles, estivessem os morcegos? Mas ergueu a cabeça e caminhou firme para os túmulos.
Ainda não os alcançara quando deu com Bri, Huin e o escudeiro.
— Pode voltar para a casa de sua senhora — disse Aravis, esquecendo-se de que o escudeiro só poderia voltar no dia seguinte, quando os portões da cidade se abrissem. — Tome um dinheiro pelo trabalho.
— Ouvir é obedecer — disse o escudeiro, partindo com uma pressa inesperada na direção da cidade. Também a cabeça dele estava cheia de morcegos.
Aravis viu-se acariciando Huin e Bri como se fossem animais comuns.
— Aí vem Shasta! Graças ao Leão! — disse Bri.
Shasta de fato apareceu, agora que o escudeiro se fora.
— Não há um momento a perder! — E em rápidas palavras Aravis falou sobre a expedição de Rabadash.
— Cães traiçoeiros! — bradou Bri, sacudindo a crina e batendo com o casco. — Um ataque em tempo de paz, sem declaração de guerra! Pois vamos lhes colocar sal na ração. Chegaremos antes deles.
— Chegaremos? — duvidou Aravis, pulando para a sela de Huin.
Shasta sentiu um pouco de inveja daquele pulo perfeito.
— Bru-ru! — bufou Bri. — Firme, Shasta? Vamos dar uma boa largada!
— O príncipe também vai largar imediatamente — falou Aravis.
— Conversa de gente humana — respondeu Bri. — Impossível organizar um esquadrão de duzentos cavalos e duzentos cavaleiros, com água, comida e armamentos, e largar imediatamente. Bem, qual a nossa direção? Norte?
— Um momento — interveio Shasta. — Deixe isso comigo. Tracei uma linha.
Depois eu explico. Vocês, cavalos, cheguem um pouco mais para a esquerda. Aí... exatamente.
— Agora tem uma coisa — disse Bri. — Isso de galopar durante um dia e uma noite só existe nas histórias. Tem de ser no passo e no trote. Quando formos a passo, vocês aí, humanos, podem descer e ir a passo também. Pronta, Huin? Vamos! Para Nárnia! Para o Norte!
A princípio foi uma beleza. Com a noite alta, a areia perdera o calor acumulado durante o dia e a temperatura era agradável. Por todos os lados a areia resplandecia como água ou como uma grande bandeja de prata. Fora o barulho dos cascos, o silêncio era completo. Shasta seria capaz de dormir, caso não tivesse de desmontar para caminhar de vez em quando.
Parecia uma cavalgada sem fim. Sumiu o luar e tiveram a impressão de avançar nas trevas por horas e horas. Quando Shasta percebeu que distinguia o pescoço e a cabeça de Bri com mais nitidez, lenta, lentamente, a grande planura cinzenta começou a surgir.
Parecia um mundo morto. Terrivelmente cansado, Shasta notou que fazia frio e que os seus lábios estavam secos. E o tempo todo o ranger do couro, o tinir dos cabrestos e o ruído dos cascos, não o proctiproc de um caminho duro, mas um pructupruc sobre a areia ressequida.
Por fim, muito longe, do lado direito, surgiu no horizonte um longo risco cinza, mais pálido. Depois um clarão avermelhado. Era enfim o amanhecer, a manhã que nem um só passarinho festejava. E, como estava ficando mais frio, Shasta começou a gostar das caminhadas a pé.
Com o sol, tudo mudou num instante. A areia cinzenta ficou amarela e cintilava como que salpicada de diamantes. As sombras de Shasta, Huin, Bri e Aravis alongavam-se à esquerda. Na lonjura em frente o topo duplo do Monte Piro refulgia, e Shasta achou que se haviam afastado um pouco da linha reta.
— Um pouquinho mais à esquerda, um pouquinho mais — comandou.
O melhor de tudo era olhar para trás e ver Tashbaan diminuindo de tamanho na distância. Os túmulos ficaram quase invisíveis, engolidos pela vasta corcova maciça que era a cidade do Tisroc. Todos se sentiram melhor.
Mas não por muito tempo. Tashbaan, muito longe quando olharam pela primeira vez, parecia permanecer no mesmo lugar enquanto avançavam.
Shasta parou de olhar para trás, para não ter a impressão de estar sempre no mesmo lugar. O sol passou a ser um incômodo, pois o fulgor da areia doía-lhe nos olhos. O jeito era esfregá-los e continuar fixando o Monte Piro e comandando a rota.
Notou que o calor havia chegado quando, ao apear, sentiu um bafo quente na face como se tivesse aberto um forno. E, quando ia desmontar mais uma vez, deu um berro de dor, um pé descalço na areia ardente e outro no estribo.
— Sinto muito, Bri, mas não aguento mais andar. Meus pés estão pegando fogo.
— É claro! Eu devia ter-me lembrado disso. Fique na sela. Não há outro jeito.
— Você não tem problema — disse Shasta para Aravis, que caminhava ao lado de Huin. — Você tem sapato.
Aravis nada respondeu. Estava com um ar superior. E infelizmente esse ar superior era propositado.
A trote, a passo, rã-rã-rã dos couros, tlim-tlim-tlim dos cabrestos, cheiro de cavalo, cheiro de si mesmo, calor, ofuscamento, dor de cabeça – eis o que era, e sempre a mesma coisa, quilômetro após quilômetro. E Tashbaan sempre lá, no mesmo lugar, nunca mais longe, e as montanhas à frente sempre no mesmo lugar, nunca mais perto.
Não acabava mais, rã-rã-rã, tlim-tlim-tlim, cheiro de cavalo, cheiro de gente. Experimentaram todos os passatempos, mas o tempo não passava. E era preciso fazer uma força monstruosa para não ficar pensando em refrescos gelados num palácio de Tashbaan, água clara batendo na pedra, leite fresco e cremoso, mas não cremoso demais... E, por mais que a gente não queira pensar, mais a gente pensa.
Entretanto, acabou surgindo uma coisa diferente: um bloco de pedra fincado na areia, com uns dez metros de altura. Com o sol já muito alto, a sombra do bloco de pedra era pouca. Foi para esse pouquinho de sombra que correram e aí se amontoaram.
Comeram e beberam um gole de água. Não é fácil dar água a um cavalo com um cantil, mas Bri e Huin souberam usar os beiços com habilidade.
Ninguém chegou a ficar satisfeito. Ninguém falou nada. Os cavalos espumavam e respiravam ruidosamente. As crianças estavam pálidas.
Após um ligeiro descanso, partiram novamente. Os mesmos ruídos, os mesmos odores, os mesmos fulgores, até que as sombras dos quatro passaram para o lado direito e foram ficando cada vez mais compridas, como se quisessem alcançar a extremidade oriental do mundo. Com o sol posto, felizmente teve fim a reverberação das areias; mas o bafo quente do chão era cada vez pior. Quatro pares de olhos procuravam excitadamente um dos sinais referidos pelo corvo. Mas só havia areia. Já iam surgindo as estrelas, e as quatro criaturas se sentiam infelizes, sedentas e exaustas. Mal se erguia a lua quando Shasta com a voz estranha de quem está de boca seca gritou:
— Lá está!
Não havia erro. Lá estava uma inclinação do terreno, um declive com massas de pedra dos lados. Os cavalos, cansados demais para falar, picaram o passo e, em dois minutos, entraram na garganta. A princípio foi ainda pior que no areal aberto; respirava-se com dificuldade entre as paredes de pedra, e o luar mal penetrava. A inclinação prosseguia, e as rochas de lado a lado pareciam altos penhascos.
Encontraram vegetação, plantas como cactos espinhosos e um capim que picava a pele. Os cascos dos cavalos pisoteavam seixos e pedras grandes. Por todas as curvas iam buscando ansiosamente qualquer sinal de água. Os cavalos quase não podiam mais, extenuados; Huin, aos tropeções, ia ficando para trás. Já quase desesperados, depararam com um fiozinho de água correndo por um capinzal menos áspero. O fiozinho virou um arroio, o arroio virou um riacho e o riacho acabou virando um rio de verdade. De repente, Shasta, meio zonzo, percebeu que Bri havia parado e que ele caíra da sela. Diante deles estava uma cachoeira, formando uma piscina de água fresca. Os cavalos começaram a beber, a beber, a beber.
Shasta entrou com a água pelos joelhos e foi meter a cabeça debaixo da cachoeira. Talvez tenha sido o melhor momento da sua vida.
Só dez minutos mais tarde os quatro começaram a observar os arredores. A lua já subira o bastante para espreitar o vale. Relva macia alongava-se pelas margens do rio; além, moitas e árvores. Flores escondidas na sombra perfumavam o ar. Vindo do escuro da mata chegou um som que Shasta jamais ouvira: um rouxinol.
Fatigados demais para falar ou comer, os cavalos deitaram-se como estavam. O mesmo fizeram Aravis e Shasta.
Cerca de dez minutos após, a prudente Huin abriu a boca:
— Não devemos dormir; temos de chegar na frente daquele Rabadash.
— Ninguém vai dormir — disse Bri com vagareza. — Só descansar um pouquinho...
Shasta percebeu que iriam todos pegar no sono se ele não se levantasse e fizesse alguma coisa. Resolveu levantar-se para convencê-los a prosseguir. Mas não agora... daqui a pouco...
E logo a lua brilhava e o rouxinol cantava acima de dois cavalos e duas crianças – todos os quatro a ressonar.
Aravis foi a primeira a acordar. O sol já ia alto, e as horas matinais mais frescas estavam perdidas. “Minha culpa”, disse para si mesma com raiva, dando um pulo e começando a despertar os outros. “Não se pode esperar que cavalos continuem acordados depois de uma canseira como essa, mesmo que falem. E o rapaz também, pois não tem o hábito. Mas eu, sim, eu devia saber.”
Os outros estavam tontos de sono.
— Bru-ru! — disse Bri. — Dormindo de sela, eu! Nunca mais, que coisa desagradável!
— Depressa, vamos, já perdemos metade da manhã.
— Antes temos de comer um capinzinho — disse Bri.
— Não podemos esperar.
— Por que essa pressa? — perguntou Bri. — Já atravessamos ou não o deserto?
— Mas ainda não estamos em Arquelândia; temos de chegar lá antes de Rabadash.
— Ó, mas devemos estar muito à frente dele — respondeu Bri. — Esse corvo, amigo de Shasta, não disse que este era o caminho mais curto?
— Ele não disse nada sobre mais curto — respondeu Shasta. — Disse apenas melhor, por causa do rio. Pode ser o mais comprido.
— Bem, não posso ir sem comer qualquer coisinha — disse Bri. — Tire minhas rédeas, Shasta.
— Por favor — falou por sua vez Huin, muito encabulada. — Também sinto como Bri que não posso mais. Mas quando cavalos levam humanos nas costas não são muitas vezes obrigados a continuar, mesmo não aguentando mais? E não descobrem no fim que ainda eram capazes de suportar mais um pouco? Pois então, será que não podemos fazer uma forcinha, agora que estamos livres? Tudo em nome de Nárnia.
— Acho, madame — falou Bri esmagadoramente — que conheço um pouquinho mais do que a senhora a respeito de expedições e marchas forçadas ou da resistência de um cavalo!
Huin ficou quietinha; era tão sensível, tão gentil, tão cordata! Mas, na verdade, estava com a razão: se Bri estivesse carregando nas costas um tarcaã, este teria achado que ele poderia continuar por muitas horas. Mas justamente uma das piores consequências da escravidão é esta: quando uma criatura não é mais forçada a fazer as coisas, quase já perdeu de todo o poder de forçar a si mesma.
Esperaram que Bri comesse um pouco e bebesse água. Huin e as crianças, naturalmente, também comeram e beberam.
Deviam ser umas onze horas quando partiram. Mesmo assim Bri não se mostrava com a mesma disposição da véspera. Foi Huin, embora a mais fraca e mais cansada dos dois, que abriu a cavalgada.
O vale era tão bonito, com as águas frescas, relvados e flores silvestres, que dava a tentação de ir vagarosamente.

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